quinta-feira, 8 de abril de 2010

FSB Comunicações: Heteronímia Digital

Este post tem a ver com uma conversa que tivemos aqui na FSB Comunicações.
Eu me transformei em uma pessoa de comunicação entrando pela porta do jornalismo. E entrei pela porta do jornalismo com um aspiracional ambicioso: eu queria uma profissão que me ajudasse a contribuir e fazer alguma diferença ao meu redor. Eu ainda tenho essa crença adolescente, mas descobri que você pode fazer diferença em qualquer outra profissão, de mil maneiras, e não apenas com o jornalismo que eu via na redoma do quarto poder.

Bem, o fato é que minha escolha foi pelo jornalismo e ela teve outros “influenciadores”. Um deles é uma foto de Claudio Abramo, na capa do seu livro “A Regra do Jogo” (http://bit.ly/9p9LTe). É um livro com depoimentos, reportagens e comentários que Abramo publicou ao longo da carreira. Através de sua trajetória jornalística, vivida intensamente no “campo de batalha” da política do país, a gente acaba tendo um retrato “não oficial” do próprio Brasil. A postura ética, técnica e profissional de Claudio Abramo foram minhas inspirações. Além do conteúdo do livro tinha também aquela foto. Olhando para o alto, para algum ponto desconhecido, sentado com uma máquina de escrever a sua frente, ele parecia “incorporar” uma inspiração (se isto fosse possível). É uma visão fotográfica de um ser “dominado”, por um momento, pela adrenalina criativa. É uma foto emblemática e inspiradora.

Vários jornalistas da FSB Comunicações tiveram essa sensação. De minha parte, tenho pensando muito nesse livro, nessa foto e tentado achar os novos “Abramo” em tempos de web: o compromisso com o fato, a notícia, a ética e a transparência, sabendo-se, de certa forma, “escritor” da história. Porque tenho pensado nisso? É que me preocupa o que ando vendo no mercado de trabalho de comunicação digital, hoje cheio de novas profissões com prevalência de muito tempo real, muita informação e um certo desprezo e até desconhecimento pela postura ética. E isso é crescente especialmente entre os novos entrantes do mercado de comunicação. É uma tendência. Não é uma generalização.

Percebo hoje um exercício exagerado e excessivamente descompromissado da “heteronímia digital” (crédito da expressão para a Paula Kamp). De certa forma há um perigoso vale-tudo que causa erosão na responsabilidade com o contar de história que os produtores de conteúdo possuem. Isso não é uma boa notícia. Ao produzirmos os conteúdos que circulam de forma perene pela internet - é fato... não dá para apagar 100% uma referência publicada no ambiente digital - precisamos ter consciência do seu impacto não apenas agora, mas na formatação do mosaico histórico. Vai me entender bem quem leu ou viu o filme que toca nessa tema: “1984” de George Orwell. É um pouco datado, mas ainda tem muita coisa a nos dizer. Mas exercitar esse equilíbrio requer transparência, credibilidade e compromisso com seu tempo. Características que o Abramo, citado, tinha de sobra. Com toda controvérsia possível. Afinal, as unanimidades são ficções de ditaduras e não de ambientes democráticos. Pensamos, aqui na FSB Comunicações, que os blogueiros e tuiteiros deste Brasil, com suas audiências pessoais, precisam ficar atentos a isso.

O autodidatismo e o acesso desenfreado às plataformas de conteúdos colaborativos estaria contribuindo para deteriorar certas posturas essenciais a um criador e difusor de conteúdo? O fato é que a desentermediação da informação colocou no ambiente colaborativo milhões de brasileiros dispostos a exercer com fluência todo o ciclo da informação. Desde a criação do veículo – blog, twitter, comunidades e grupos - até o “broadcast” para suas micro-audiências - estamos criando uma maravilhosa forma de conhecimento, valoração do consumidor, comportamento e exuberância do conhecimento. No entanto, no rastro quantitativo, há uma notória deteriorização da persona ética.

A heteronímia – ao contrário do uso criativamente vulcânico de Fernando Pessoa para expressar suas diferentes faces poéticas – tem surgido na versão digital como uma vazão de comportamentos erráticos, algumas vezes protegidos pelo anonimato, outros pelos conceitos distorcidos da liberdade permitida na rede. Eu não acho que vale-tudo na web. Quanto mais recursos e mais informações tivermos, maior nosso compromisso com os princípios do mestre Abramo. Desde a apuração correta da informação, do uso compromissado (e citado) das fontes até o frescor no estilo de contar uma história.

Na verdade, no final, nossa produção – nesse volume sufocante e excitante de exabytes informativos no ambiente digital - nada mais é do que a expressão clara e óbvia do nosso caráter e do jeito como enxergamos nossa relação com o mundo. Esta é uma campanha pela heteronímia digital criativa que a gente encampa aqui na FSB Comunicações.


Risoletta Miranda é Diretora-Executiva da FSB PR Digital (www.fsb.com.br), braço da FSB Comunicações. Formada em jornalismo, MBA Marketing COPPEAD/UFRJ, especializada em Planejamento Estratégico de Marketing e Comunicação Digital e uma das criadoras do Conceito de VRM – Virtual Relationship Management.
rizzo@fsb.com.br
www.twitter.com/rizzomiranda

domingo, 7 de março de 2010

Conceito antes da Ferrramenta para os Porta-Vozes da verdadeira história da humanidade

Estive na sexta-feira, participando de um evento muito legal - o Circuito 4 x 1 (http://www.circuito4x1.com.br/ ) - a convite do @kakamachine e sua turma que tem agitado o mercado do Rio com eventos e debates sobre o ambiente digital. Minha missão profissional era falar um pouco da minha experiência em Gestão de Projetos em Mídias Sociais. A missão pessoal era encontrar pessoas e reciclar energias. E foi, como sempre tem sido comigo nessas situações, uma experiência de grande prazer. Pode ser com platéia de estudantes ou com os diretores de grandes empresas nos MBA's do Coppead/UFRJ. Em todas essas situações eu sou a maior beneficiada. Sem proselitismo: quando você interage em um ambiente em que as pessoas estão ávidas por conhecimento, você é naturalmente impregnado pelo mesmo desejo e assim se alavanca, no meio do caos da agenda profissional do dia-a-dia, para um lugar mais criativo onde prevalece o desejo de continuar estudando e aprendendo.

Do encontro de ontem nasceu uma provocação que deu neste "Pronto Pensei" pois li um post elogioso que, no entanto, me pedia mais números e dados. Eu gostaria de explicar para algumas pessoas o meu jeito de lidar com palestras e painéis deste tipo. Eu raramente apresento grande volume de informações de mercado, análise de ferramentas ou disseco metodologias. Eu não considero isso conhecimento de primeiro nível embora goste muito de ver este tipo de palestra também e as considere muito importantes. Mas, para mim, elas "aparecem" depois. As ferramentas e metodologias são necessárias e nos ajudam a comunicar de maneira adequada no sentido do formato. No entanto, você não vai a lugar nenhum - e isso em qualquer situação da sua vida, incluindo a pessoal - se não entendeu o conceito do que está fazendo. Isto está na origem de tudo.

Então, para mim, o mais importante é provocar as pessoas para que elas reflitam sobre o ponto do conhecimento onde estão apoiadas hoje. É urgente e necessário - inclusive com o uso das ferramentas gratuitas que existem na internet -, que nos permitamos absorver conhecimento de "fundo". Ou seja, conhecimento teórico que nos dê base para análises maduras, abalizadas, fortalecidas por um conhecimento que vem sim da academia, dos estudiosos do passado e que ajuda a varrer o "achismo" do nosso mercado.

Um mercado tão novo como a da comunicação digital não pode se deixar levar pela ensandecida corrida do vale tudo. O conhecimento de bases teóricas de comunicação, marketing, antropologia, sociologia e tantas outras ciências que contribuem para o nosso pensamento, é necessidade prioritára de primeiro nível. Não se trata de imaginar que precisamos ser doutores nessas disciplinas (longe disso!). Trata-se de se imaginar um profissional de comunicação que tem a imensa responsabilidade de criar, todo dia, em cada post na sua rede social favorita, a verdaderia história da humanidade. A história que caminha paralela à história oficial. Se isso é verdade, não podemos olhar para nossa atividade com o viés da trivialidade (exceções consideradas - talvez - para as atividades de cunho mais pessoal). Por exemplo: se somos jornalistas - não interessa se com 20 anos de formação ou no segundo período da faculdade- é preciso que sejamos continuamente provocados por esse compromisso: construir nossa dignidade intectual porque ela é a base da nossa credibilidade. E credibilidade é a parte mais bonita do ser humano. É a parte intocável do profissional.

Esse é o motivo que sempre me leva a falar mais de conceito do que de métodos. Estes, são "commodities". Como gente de comunicação, temos que nos preocupar com a perenidade do que escrevemos nas redes. Afinal, como escrevi antes, criamos com nossos "posts" e comentários um cenário do nosso tempo, espelhando nossos desejos, nossas notícias, nossa realidade, nossos sentimentos pelos amigos, nossa ansiedade com os inimigos. Somos, enfim, os atuais contadores de histórias, porta-vozes de nós mesmos e, juntos, um mosaico de toda uma sociedade. Precisamos nos embuir da responsabilidade desse papel e ter consciência do impacto da perenidade do que produzimos nas redes sociais. Sempre pensei isto como jornalista e hoje, no mundo das "social machines", tenho ainda mais convicções sobre o tema. Ferramentas são meio. Conceitos nos dão diferenciação, integridade e responsabilidade com nosso tempo histórico.